A masculinidade não está em crise, ela está se vingando pela suposta perda de protagonismo e passa a produzir violências estruturadas contra grupos marginalizados, invisibilizados e mulheres. Você pode entender mais sobre masculinidade neste post aqui.
O artigo que se apresenta agora é uma continuidade do primeiro indicado acima e seu objetivo é mostrar como os homens continuam se educando no que se refere à masculinidade, provocando dor e sofrimento.
A este processo a pesquisadora Valeska Zanello atribui o nome de dispositivos de gênero, representados pelos dispositivos amoroso, materno e de eficácia em seu livro “Saúde mental, gênero e dispositivos”. Pretendo abordar cada um deles aqui, mas recomendo a compra deste livro excepcional.
O dispositivo amoroso é a corrente de aprisionamento das mulheres, pois a elas foi ensinado o amor burguês no qual amar é a característica fundante de sua existência. A mulher vive para a relação na qual está inserida e parte do processo reside em ser uma mulher desejada sexualmente para poder amar e ser amada, sendo que uma mulher independente não pode ser feliz sozinha, mesmo que com dinheiro. Esta construção social demanda que as mulheres sejam diminuídas e apagadas de seu protagonismo, afinal atrás de um grande homem sempre tem uma grande mulher. Mesmo o final de uma relação pesa mais para a mulher do que para o homem, já que ela deve se guardar para o próximo enquanto os homens deixam vivem a vida libertina. O dispositivo é cruel porque incentiva as mulheres a competirem entre si pela conquista e manutenção do homem ideal. A indústria fármaco-estética agradece.
Já o dispositivo materno faz uso do dispositivo amoroso ao transformar uma função necessária à reprodução da vida em algo único e belo, com um amor espontâneo, diferente e inflacionado, ressaltando o apagamento de uma cultura social de criação de filhos por uma comunidade. A obrigação da mulher para com suas novas atividades se dá pelo amor à criança e, em nome dela, da constituição de um lar e de uma família idealizada. Ao trabalho reprodutivo se dá o nome de amor. O cuidado de uma mãe transborda de culpa, afinal nada pode faltar a esta criança, nada pode dar errado e, assim, o apagamento da mulher, agora mãe, continua. É ela que em nome da culpa deve sair de sua carreira profissional ou se dividir entre os dois mundos, arcando com a responsabilidade de dar pouco amor a esta criança. Neste modelo, a criança é da mãe e pais ausentes ou abandonantes não são questionados, tudo sendo normalizado. Em geral, meninos crescem vendo a mãe sobrecarregada enquanto os pais homens estão fazendo alguma outra coisa, aprendem pelo exemplo que no futuro eles terão papéis diferentes. Ao trabalho reprodutivo soma-se o trabalho doméstico e ambos não são remunerados.
Para entender o dispositivo de eficácia, entretanto, é necessário resgatar a masculinidade, aquela construção social que determina o que é um homem e que se expressa por não ser uma mulher, ou seja, negando e diminuindo qualquer forma que o aproxime de uma expressão do feminino: mulher chora, logo homem não chora; mulher cuida, logo homem não cuida; mulher é frágil, logo homem é forte e bruto; e por aí vai.
Para negar os atributos daquilo associado às mulheres, os homens estabelecem um processo de validação constante da masculinidade conhecido como “casa dos homens”, na qual uma criança do sexo masculino deve andar de cômodo em cômodo passando por provas que outros homens estabelecem, de modo que este avance em sua formação como homem à medida que cumpre o esperado. Fazem parte desta formação o bullying, os desafios entre amigos, a resistência às violências com o embrutecimento e o enrijecimento emocional, a conquista sexual, o sucesso financeiro e esportivo, além de muitas outras.
Ao passar pela “casa dos homens”, que pode ser qualquer lugar público ou privado, homens conquistam seu lugar neste universo e se tornam solidários entre si, passando a se chamar mutualmente de irmão, brother, companheiro e parça, um privilégio inalcançável para as mulheres, tanto em relação aos homens como em relação à outras mulheres.
Entretanto, passar pelas provas não é suficiente para manutenção do status de homem, afinal a produção de violência traz consigo a produção de sofrimento para si e para os outros. Nesse sentido, para se manter dentro da “casa dos homens” é necessário um pacto adicional de silêncio e cumplicidade. O que acontece na casa dos homens fica na casa dos homens. Homens se calam frente à abusos, afinal ele não é um traíra, um X9 ou um cagueta.
Segundo Valeska Zanello, o disposto de eficácia é a demonstração corrente do papel do homem tanto pela virilidade sexual como pela virilidade laborativa, o homem conquista e fode, o homem trabalha e ganha dinheiro. A exclusão do associado ao feminino está completa quando se educa por estes valores.
Hoje, bilionários são ídolos e passam mensagens fortes nas mídias em geral:
- Dono do Facebook, Mark Zuckerberg fala que as empresas precisam de mais energia masculina (não esqueçamos que a primeira versão da rede foi criada para votar nas fotos das mulheres mais atraentes de sua faculdade, o Facemash).
- Dono da Amazon, Jeff Bezos, além de possuir uma empresa de exploração espacial com foguetes em forma de pênis, explora seus trabalhadores em condições que não permitem nem idas ao banheiro.
- Dono da Tesla, Elon Musk quer semear o planeta com seres humanos de alta inteligência, no caso seus próprios filhos.
Localizando a masculinidade no Brasil, um exemplo não pode deixar de ser relatado, o do ex-presidente golpista, que se diz imbrochável, incomível e imorrível. Tais atributos podem ser elencados no dispositivo de eficácia. Homens fodem (não é transar, algo feito a dois) e foder é penetração, consentida ou não na visão de homens assim, restando à mulher resta ser penetrada, ser passiva e objeto do homem viril, cujo anus, ou cu, não pode ser acessado nem para um exame de próstata.
Homens de poder são inspiração para outros homens que precisam se afirmar em seus imaginários, visto que eles próprios não podem ou não conseguem oprimir no grau que gostariam – o silêncio dos homens também se torna aplauso.
Lógico que existem homens que não são assim, que não betam palma para louco dançar, mas o dispositivo também os alcança em algum grau por:
- Rir de piadas machistas quando em seu grupo de amigos, mesmo sem vontade;
- Realizar xingamentos homofóbicos, misóginos e racistas quando se está nervoso;
- Receber e mandar pornografia como forma de demonstrar virilidade;
- Se apresentar sempre disposto para o sexo, correspondendo pressão dos amigos;
- Silenciar quando presencia comportamentos violentos;
- Fazer brincadeiras de menino dando tapas ou socos; e
- Ficar até mais tarde no trabalho, ou sair com os amigos para espairecer, esperando que a mulher dê um jeito nas coisas do casal ou com os filhos
A lista é longa e eu poderia seguir com ela para muito mais além. O importante, para além de listar exemplos e refletir no nosso dia a dia e perceber aquele desconforto da outra pessoa, lembrar que não é mimimi ou frescura, entender que não era melhor antigamente.
Uma pesquisadora inglesa relata que a construção desta violência contra mulheres está sendo renovada com o auxílio da Internet e para as gerações mais novas, que são inundadas com conteúdo misógino em seus ambientes virtuais. Temos hoje adolescentes e jovens ainda mais machistas que seus pais, pois redes como Instagram e Tik Tok usam e abusam deste tipo de conteúdo para manter a audiência. A chegada da inteligência artificial piorou a situação, pois estas ferramentas criam imagens de mulheres nuas a partir da foto de uma pessoa conhecida, além da construção de namoradas virtuais altamente submissas, naturalizando a violência em um momento de formação da personalidade.
A relação com a saúde mental é direta, uma vez que a construção de ideais não realistas cria angústia e sofrimento que são canalizados para a violência contra o outro e contra si mesmo. O amor-próprio diminui e cresce a necessidade de oprimir mulheres e outros grupos para auto validação não raro acaba em depressão ou outros transtornos.
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Artigo escrito por Mauricio Corsetti.
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