A Construção Social do Amor: Deuses, Filósofos e Capital
Continuando a reflexão iniciada no artigo anterior sobre a essência biológica do amor, neste segundo texto da série voltamos nosso olhar para as influências externas. Exploraremos como as grandes civilizações, religiões e ideologias moldaram a forma como definimos, praticamos e consumimos o amor ao longo da História.
O Amor na Grécia Antiga
Nossa sociedade ocidental é baseada na mitologia grega, incorporada fortemente pelo cristianismo. Para este povo antigo, que valorizava a filosofia e a razão, existiam quatro tipos de amor:
- Ágape: O amor incondicional e divino, associado ao sacrifício.
- Eros: O amor romântico, apaixonado e sexual.
- Philia: O amor fraternal de amizade, proximidade e respeito.
- Storge: O amor familiar, da relação entre pais e filhos.
Os gregos ainda se referiam ao “amor-próprio”, porém este tinha um viés de egoísmo e precisava ser “balanceado”. É interessante manter isso em mente ao analisarmos as construções modernas.
O Amor no Cristianismo
Meu intuito não é discutir a fé, mas sim apresentar conceitos de amor; tomo o cristianismo como exemplo por ser a religião dominante em nosso país. A Bíblia apresenta o amor como uma orientação, herdando do antigo testamento judaico a obrigação de “amar a Deus sobre todas as coisas”.
Constam na Bíblia várias orientações sobre amar os filhos, o companheiro, os amigos e os inimigos. Entretanto, o amor nem sempre é apresentado como incondicional, mas como uma lição, cuja falha levará a um destino ruim. Em geral, o amor se manifesta como generosidade, altruísmo e sacrifício.
O amor, para o cristianismo, pode gerar uma relação de dívida e culpa com a outra pessoa, visto que somos sempre colocados em segundo ou terceiro plano.
O Amor na Disney
Com o fim da Segunda Guerra Mundial, as novas mídias (rádio e televisão) criaram uma pasteurização cultural alavancada pelo “modo Disney” de ver o mundo e o amor.
Papéis de gênero são reforçados: a mulher espera o príncipe, e o homem a salva. A era capitalista representada pela Disney mostra o amor como forma, não como sentimento. São palavras de afirmação, atos de sacrifício, presentes, lugares e roupas. Cria-se um ideal de amor para toda uma geração, um sonho a ser vivido. Apenas muito recentemente o padrão das produções Disney foi alterado para incluir amores não normativos e maior foco na independência da mulher.
O Amor no Capitalismo Neoliberal
O capitalismo deu lugar a uma versão ainda perversa: o amor neoliberal. O amor se torna utilitarista, moeda de troca, algo a ser medido, verificado e, até mesmo, comprado.
O amor adquire uma característica de fluidez, onde nada mais é para sempre. O individualismo e a autoproteção ganham destaque. O “amor-próprio” dos gregos antigos se estabelece como o próprio objetivo, levando à objetificação das relações e das pessoas, tornando-as descartáveis. Vemos isso em redes sociais, nas relações familiares interrompidas e nas escolas que ensinam a competir. O afeto genuíno se torna proibitivo, pois a vinculação emocional em tempos de liquidez gera frustrações e angústias.
O Amor no Socialismo
O conceito socialista do amor é vivido por parte da sociedade. Ele é mais social na acepção da palavra, algo socialmente construído, manifestado nas relações interpessoais como um todo.
O amor socialista é, antes de tudo, contra-egoísta, unindo as pessoas em torno de uma luta por um mundo mais justo. É baseado na solidariedade e no companheirismo, possibilitando uma transformação social. Neste sentido, o amor não estabelece estruturas de opressão como o casamento romântico ou a família como posse. As pessoas vivenciam amor e liberdade de forma não dependente.
Conclusão: Amor é um Espelho Cultural
A jornada através das eras e ideologias revela que o amor é um espetáculo de projeções culturais. Ele foi sacrifício divino, razão filosófica, conto de fadas mercantilizado e, mais recentemente, um bem de consumo líquido.
Para além dessas imposições, o amor é, em sua essência, conexão. Ele não pode ser justificativa ou explicação para a definição de outros sentimentos. Ao entendermos as lentes culturais que usamos para enxergar o amor, podemos finalmente valorizar e vivenciar sua forma mais pura e independente.
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Artigo escrito por Mauricio Corsetti.
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