Por definição, o ser humano não é resiliente.
Independentemente do que se diz, muitas vezes palavras são empregadas sem seu verdadeiro sentido ou até de forma equivocada. É o caso da resiliência, conceito tão esperado, desejado e incentivado no mercado de trabalho. — “Você precisa ter resiliência!”, dizem por aí. Mas o que realmente isso significa?
O senso comum parece sugerir que ser resiliente é algo mais do que simplesmente ser resistente. Afinal, se surgirem novos termos, é porque o termo original já se mostrou insuficiente. Vamos consultar o dicionário para entender melhor os significados, mesmo que a internet já tenha feito esse papel:
- Resistência: Ação ou efeito de resistir, de não ceder nem sucumbir.
- Resiliência: Característica dos corpos que, após sofrerem alguma deformação ou choque, voltam à sua forma original; elasticidade.
Ser resistente é não se deixar destruir pelo processo; ser resiliente, por sua vez, é enfrentar ataques e traumas e conseguir voltar ao que se era antes do impacto, algo que nunca é verdade. Pode parecer uma questão de precisão linguística, pois usamos o termo “resiliência” de maneira figurada. Em linguagem figurada, qualquer coisa pode ser resiliente — assim como dizemos que somos um “túmulo” quando somos bons em guardar segredos, mesmo sabendo que, na prática, os segredos nunca permanecem segredos por muito tempo.
No mercado de trabalho, ao exigir resiliência, o sistema pede que suportemos situações que, na verdade, não deveríamos ter que aguentar, como se o esforço fosse sempre recompensado ou como se o preço do desgaste não tivesse consequências. Alguns exemplos dessa demanda são:
- Chefes abusivos (sejam moral, sexual ou psicologicamente);
- Sobrecarga de trabalho;
- Jornadas longas e múltiplas de trabalho (remuneradas ou não);
- Transporte público lotado em trajetos exaustivos e demorados;
- Salários insuficientes para garantir uma vida digna.
Cada um desses fatores nos transforma, fazendo com que dificilmente possamos ser os mesmos ao final do dia. Muitas vezes, os acontecimentos cotidianos são tão intensos que deixam marcas duradouras em nós e em pessoas próximas e queridas, causando mágoas e, eventualmente, depressão.
A depressão é uma das formas como o corpo e a mente sinalizam que a ideia de resiliência é uma ilusão. Mesmo aqueles com privilégios descobrem, mais cedo ou mais tarde, que a recompensa esperada não compensa os prejuízos sofridos em busca desse ideal.
Enquanto tentamos ser resilientes, a vida segue seu curso: filhos crescem, doenças se manifestam, amores se vão, abusos ocorrem e vasos se quebram. Um vaso reparado ainda exibe marcas do ocorrido, assim como nós, enquanto seres humanos, permanecemos marcados. Cada vez que nos esforçamos para ser resilientes, quebramos um pouco por dentro, mudamos nossas ideias, nosso corpo sofre e traumas psicológicos se instalam. Não voltamos a ser os mesmos de antes; somos seres em constante transformação.
Desde o nascimento, crescemos, amadurecemos e começamos a jornada do envelhecimento. Biologicamente, não mantemos nossa identidade, pois a maioria de nossas células morre e é substituída ao longo da vida. Esse processo de regeneração é fruto da resistência, não da resiliência — a resistência busca a manutenção do estado atual (estar vivo), permitindo que a vida se ajuste e deixe suas marcas.
A ideia de resiliência é, portanto, uma fantasia do capitalismo, assim como a noção de reciclagem (outro tema à parte) também o é. Vivemos em um modelo econômico, o capitalismo neoliberal, que é uma versão perversa do capitalismo tradicional, no qual as estruturas sociais são precarizadas em nome do lucro, ao mesmo tempo que se responsabiliza o indivíduo pelo seu sucesso ou fracasso, na mentira da meritocracia. Esse sistema atua dividindo e conquistando corações e mentes.
Ao exigir resiliência, o sistema incentiva nossa passividade, impedindo que busquemos mudanças significativas. Ao oferecer pequenos prêmios ou bônus para aqueles “que merecem”, ele tenta nos iludir quanto às reais possibilidades de sucesso, que não se aplicam a todos. Esse abuso do conceito de resiliência pode gerar uma frustração interna tão intensa que acabamos descontando em nossos colegas e amigos, tornando os laços sociais mais frágeis. Enquanto tentamos esconder os cacos daquele vaso quebrado, a depressão, o pânico, a ansiedade e outros sintomas se intensificam.
Como sair desse ciclo?
É consenso que nosso estilo de vida, imposto por um sistema desigual, está nos adoecendo. Diante de desafios complexos, é preciso adotar soluções igualmente complexas, já que dependemos do trabalho para reprodução material da nossa vida. Cuidar de si mesmo requer:
- Reconhecer e compreender nossos sentimentos e emoções;
- Perceber o que estamos abrindo mão em nome de um “futuro” promissor;
- Saber identificar nossos limites para evitar o colapso;
- Construir uma rede de apoio emocional verdadeira;
- Estudar questões sociais, políticas e econômicas para lutarmos pelos nossos direitos;
- Buscar apoio psicológico profissional aos primeiros sinais de mal-estar.
Apesar dos desafios e dos traumas, somos, de fato, resistentes. Podemos aprender com nossos sucessos e fracassos, mas não devemos nos iludir acreditando em ideias que negam nossa verdadeira natureza.
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Artigo escrito por Mauricio Corsetti.
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