Psicologia hospitalar, Saúde mental

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O hospital apresenta muitos desafios para a saúde mental.

Para muitos, enfrentar o ambiente hospitalar – com seus exames e médicos que, de certa forma, detêm o poder sobre nossas vidas – é menos assustador do que a própria terapia psicológica. Essa situação torna as emoções ainda mais complexas, especialmente diante de doenças crônicas, como o câncer.

As enfermidades, frequentemente, não afetam apenas o paciente, mas também todo o seu núcleo familiar. Muitas vezes, diante das dificuldades em lidar com essa realidade, seja pelo excesso ou pela falta de apoio, acabamos deixando a pessoa ainda mais vulnerável. É inegável que os cuidadores também necessitam de atenção e cuidados; contudo, o foco deste texto recai sobre os pacientes. Leia sobre cuidadores aqui.

Minha experiência nesse contexto vem do trabalho realizado como psicólogo no Hospital da Mulher, no departamento de oncologia, localizado no centro da cidade de São Paulo. Nesse ambiente, atendi diversas pacientes oncológicas em diferentes estágios da doença, sendo que cada uma apresenta suas singularidades e necessidades de forma imediata. Não há espaço para escolha de casos.

O próprio ambiente hospitalar é tenso: os familiares se encontram aflitos e os profissionais, frequentemente à beira do esgotamento, lutam para manter o bom humor e a saúde mental diante de situações de vida ou morte. Em meio a esse clima, os pacientes muitas vezes assumem uma postura passiva, e a necessidade do atendimento psicológico se torna evidente para todos.

Entretanto, meu foco era atender aquelas pacientes que compareciam ao hospital para a infusão de quimioterapia ou hormonioterapia no tratamento do câncer. Inicialmente, imaginei que as questões abordadas girassem exclusivamente em torno da doença. No entanto, percebi que, embora o câncer possa ser um tema carregado de tabu para alguns, os relatos sobre abandono, dificuldades financeiras, traições, violência de gênero, mágoas e decepções surgiam com grande peso, refletindo dilemas comuns a pessoas não enfermas e em diversas situações de vida.

Isso, porém, não significa que o atendimento seja simples ou fácil. As pacientes que atendi já se encontravam em um estado acentuado de vulnerabilidade física e emocional, exigindo um aprofundado preparo prévio e contínuo, além de uma constante foco durante as sessões – onde os silêncios prolongados falam tanto quanto os olhares que expressam dor, a ausência de um familiar ou a pressão para manter o positivismo forçado. Em nossa sociedade, orientada por uma cultura patriarcal e machista, as mulheres frequentemente assumem o papel de cuidadoras.

Um dado alarmante, apontado por um estudo da Sociedade Brasileira de Mastologia, revela que 70% das mulheres com câncer são abandonadas pelos companheiros durante o tratamento, o que agrava significativamente sua saúde mental. O aumento do estresse emocional e a ansiedade decorrentes dessa separação podem desencadear sintomas depressivos e comprometer tanto o engajamento com o tratamento quanto o enfrentamento da doença. O abandono, ocorrido em momento de extrema fragilidade, deixa traumas que podem ressurgir em relações futuras, além de impor desafios financeiros, pois a paciente precisa assumir novas responsabilidades sozinha.

Em relação às questões de gênero, embora minha experiência esteja centrada nas mulheres em tratamento, estudos indicam que os homens enfrentam desafios ligados à perda de autonomia. Uma doença, uma internação ou um tratamento prolongado podem desencadear sentimentos de incapacidade, dependência, insegurança e a sensação de perda de controle sobre si e seu ambiente. Nessa mesma sociedade patriarcal e machista, o homem que adoece e não cumpre integralmente seus papéis sociais é, muitas vezes, estigmatizado, o que o leva a evitar buscar ajuda médica mesmo em estágios avançados de enfermidade.

A fé exerce, sem dúvida, uma força poderosa, porém, por si só, não resolve os emaranhados do cotidiano. A esperança de cura e a busca por soluções demandam reflexões profundas e mudanças efetivas que devem se iniciar internamente.

O atendimento ambulatorial hospitalar possui características específicas: a quantidade e a frequência das sessões não são pré-estabelecidas, sendo definidas conforme a demanda diária. Dessa forma, surge a pergunta: qual o papel do psicólogo diante de uma doença crônica ou de um paciente em tratamento intensivo? Técnicas de psicoterapia breve, com cerca de dez a doze sessões, podem não se aplicar de maneira ideal nesse contexto. Assim, o acolhimento psicológico torna-se essencial para iniciar um processo terapêutico que poderá se aprofundar posteriormente. Mais importante que tudo é oferecer uma escuta qualificada, sem preconceitos e livre de julgamentos, que permita individualizar o atendimento mesmo em meio ao caos da realidade.

Somente ao compreender profundamente a pessoa à nossa frente podemos ampliar seu espaço interno, possibilitando que ela trabalhe suas questões e se adapte a sua nova condição. Esse entendimento promove novos diálogos no entorno, proporcionando mais segurança, abertura e autoconfiança, mesmo diante da doença.

Ainda que as histórias nem sempre sejam alegres e a vida, por vezes, pareça indigesta, todas buscam se reorganizar e encontrar um novo sentido em meio ao risco ou à iminência da morte. Nesse sentido, o contexto de cada pessoa é fundamental para compreender sua singularidade e orientar seu tratamento. O papel do psicólogo hospitalar – ou daquele que acompanha pessoas em estado de enfermidade – transcende o simples acolhimento, abrangendo também aspectos práticos da vida, uma vez que a doença tem o potencial de reorganizar ou desestabilizar dinâmicas familiares consolidadas ao longo dos anos.

Vamos juntos caminhar em uma melhora de saúde? 

Artigo escrito por Mauricio Corsetti.

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