Este é um artigo longo, que exige um pouco de paciência para leitura, mas será compensador.
Vamos começar pelo começo, uma coisa é o sexo atribuído ao nascimento mediante uma prova viva de virilidade, tem pênis é menino, não tem pênis é menina. A partir daí falamos sobre o gênero, uma construção social (tanto quanto o sexo) que atribui características de homens e mulheres. Ao longo de sua história, a sociedade determinou o que era ser homem e qual o papel que ele deveria exercer na sociedade. A isso damos o nome de performatividade, aquilo que não existe se não for praticado.
A ideia por trás disso é que você não é homem ou mulher por si só em seu quarto, você precisa de um referencial. Ao se relacionar com outras pessoas, há uma expectativa sobre como deve ser nosso comportamento e por isso devemos demonstrá-lo o tempo todo. Meninos vestem azul, meninas vestem rosa.
Isso é ideologia de gênero, uma mensagem forte que determina quem é você pela cor da sua roupa e pela posse ou não de um pênis, é a ideologia dominante em nosso mundo. Mas, como toda a ideologia prevalente, ela não é percebida como ideologia, logo o termo de ideologia de gênero é o ataque feito às ideias de quem se opõe a norma. Parece que ideologia é só o que a outra pessoa pensa, muito surreal, mas se quiser saber mais sobre ideologia, clique aqui. Ideologia de gênero não é sobre ser ou não gay ou trans ou qualquer besteira que se fale nos ambientes de extrema direita, sobre manter o que se existe hoje.
Avançando ao tema do post, chegamos então ao ponto no qual a masculinidade é uma idealização de comportamento. Homem é forte, não chora, não se abate, tem que se esforçar ao máximo para ser o ganhador, o predador, caso contrário, não é homem.
Homem tem que se provar o tempo todo, seja no trânsito, no futebol, no trabalho, com os amigos, com a família e especialmente, com as mulheres. E como demonstrar masculinidade em todos os ambientes? Vestindo uma máscara que impede este homem de demonstrar qualquer sentimento que possa ser visto como uma fraqueza. E se nenhum homem pode perder ou aparentar fragilidade, temos o que consideramos a masculinidade hegemônica, na qual homens agora precisam comprovar para outros homens que são mais homens, os verdadeiros homens. Que tal vestir um casaco laranja e subir uma montanha, pagando um monte de dinheiro para isso? Legendários, ficção ou realidade?
A masculinidade hegemônica impede que outras masculinidades aflorem, ou seja, outros modos de ser homem, mas elas surgiram. Na teoria e na prática se observam exemplos de outras formas de performar o gênero masculino, muito em virtude da interseccionalidade (o cruzamento de variáveis de sexo, gênero, classe social, cor da pele, local de nascimento e outras coisas) e dos desejos individuais.
Homens começam a entender que a masculinidade hegemônica é apenas para homens brancos, religiosos e ricos (mais abaixo apresento contrassensos). São eles que conquistaram por meio da colonização e do extermínio histórico, e neoliberalismo financeiro mais recentemente, o direito de se mostrarem mais homens que os demais. Para isso, vale conhecer este post que fiz baseado no material produzido pela Valeska Zanello.
Também é por isso que um homem trans, uma pessoa cujo sexo ao nascimento foi atribuído como mulher, mas que ao longo de sua história se via como homem e lutou pelo direito de mudar sua classificação, incomoda tantas pessoas. Como uma ex-mulher, sem pênis, ainda que branca, pode performar uma masculinidade dominante? Se isso é possível, é porque a cultura pode ser mudada. É neste ponto que o vaso de cristal quebra e não pode ser mais consertado. A falácia do gênero se mostra em todo seu vazio. O resultado só pode ser um: VIOLÊNCIA DE GÊNERO.
Em nome da proteção do conceito de masculinidade, da propriedade adquirida historicamente e dos direitos que se retroalimentam para apenas a sua classe, os homens defendem seu território com maior ou menor intensidade.
Em uma versão sedutora, e disfarçada de livro de autoajuda, temos o best-seller “Homens são de Marte, Mulheres são de Vênus”, de John Gray. Ele se descreve como PhD (possui um doutorado), porém as informações sobre sua formação são suspeitas. No livro, baseado em vozes da cabeça dele, ele escreve sobre as diferenças entre homens e mulheres como sendo biológicas e de interesses opostos, fazendo com que as mulheres se adaptem ao homem de marte. Ao invés de promover igualdade, o livro reforça preconceitos e vieses, se mantendo entre os mais vendidos há mais de 30 anos. Para piorar, ele é acusado de roubar o trabalho de uma mulher para escrever seu livro.
Por vezes se fingindo de bons-moços, cavalheiros cuidadores, mas nem sempre. Na maior parte das vezes, vemos o lado sombrio por meio da misoginia clara, o ódio e menosprezo declarado contra as mulheres. Neste sentido, podemos explorar algumas palavras e conceitos deste universo de ódio.
Masculinidade, já deve ter ficado claro neste ponto, é a forma pela qual homens demonstram serem homens, é o processo ativo de construção social e, como tal, variável e adaptativo.
Machismo é a forma manifesta do homem ser homem em cima das mulheres, com um comportamento que diminui as capacidades da mulher, que restringe acessos a locais ou grupos, que impõe uma vigilância constante sobre o comportamento da mulher seja com relação às suas roupas ou desejos, e muitas outras coisas. Um detalhe importante, o feminismo não é o oposto do machismo, pois enquanto o machismo é um movimento contrário à vida da mulher, o feminismo, de modo geral, é um movimento de igualdade entre homens e mulheres. Homens que se sentem agredidos pelos conceitos feministas estão, na verdade, incomodados pela “perda de direitos”, e já vimos como estes direitos foram conquistados.
Já o Masculinismo é a reunião de ideologias fantasiosas sobre os direitos dos homens como forma de retaliar o movimento feminista. De forma direta, o feminismo busca igualdade entre homens e mulheres, luta pelos direitos iguais. O masculinismo busca destruir o feminismo e restituir os valores tradicionais.
A Machosfera, de macho na esfera digital, é o agrupamento de homens ressentidos com as mulheres em grupos e fóruns de internet para a produção e compartilhamento de conteúdo misógino. Não é obscuro, está totalmente disponível para quem se interessar, com consequências devastadoras para a sociedade. Já assistiu Adolescência? Tem um post aqui sobre a série da Netflix.
Dentro do ambiente digital, os homens constroem uma realidade paralela e produzem conceitos em busca de audiência e “monetização”, a remuneração de posts feitos pelas redes sociais. Sim, a liberdade de expressão permite crimes contra a mulher em ambientes digitais e a extrema direita sabe disso. A luta pela responsabilidade civil de redes sociais e provedores também tem a ver com isso.
Alguns dos conceitos criados dentro da machosfera são:
- Red Pill – Homens que acordaram para o perigo que as mulheres representam e que devem pegar de volta o poder para fazê-las novamente submissas.
- Incel – Os celibatários involuntários são homens que culpam as mulheres por não conseguirem se relacionar sexualmente, afinal elas preferem outros homens mais fortes e poderosos (sim, há um contrassenso aqui) ou até outras mulheres, daí o ódio e a violência contra a comunidade LGBTQIAPN+.
- 80/20 – No ambiente digital a lei de Pareto é expropriada para explicar que 80% das mulheres são atraídas por 20% dos homens, que são mais viris e bem-sucedidos (sim, há um novo contrassenso aqui).
- SMV – A objetificação dos corpos da mulher e do homem estabelece um valor sexual de mercado em sites de relacionamento, ou seja, apenas mulheres que tem determinados atributos são desejadas, bem como homens. Aqui surgem classificações como Beta, Alfa, Sigma entre outras.
- MRA – Homens ativistas por seus direitos (do original em inglês) lutam pela conscientização dos homens a respeito do papel das mulheres e do risco que elas oferecem. O conceito é anterior à Internet, mas ele ganhou muito impulso no ambiente.
- MGTOW – Os homens que seguem seu próprio caminho (do original em inglês) acreditam que a sociedade deve seguir sem as mulheres pois elas agora são perigosas.
Mas o que fazer com tudo isso agora?
O conhecimento traz responsabilidades, afinal se sabemos que algo gera prejuízo a existência de outras pessoas, precisamos refletir e mudar nosso comportamento. É necessário entender que homens se expõem a riscos desnecessários pela prova constante de masculinidade e estes mesmos homens agridem mulheres, direta ou indiretamente, ao longo do caminho. A igualdade é um conceito libertador que permite maior qualidade de vida e saúde mental.
A saúde mental de homens e mulheres é influenciada diretamente pela existência da atual masculinidade e é mais do que necessária uma reflexão e novas atitudes frente à vida cotidiana. A mudança não é fácil e muitos outros aprendizados surgem pelo caminho. Contar com uma companhia nesta jornada é importante para que o processo seja feito com reflexão, cuidado e acolhimento.
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Artigo escrito por Mauricio Corsetti.
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