Saúde mental, Sociedade

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Pensar a psicologia é refletir sobre nosso próprio desenvolvimento. Para isso, precisamos entender três coisas: o presente, o passado e o futuro.

O presente é a parte mais fácil, é este exato momento que já ficou para trás quando você termina de ler a última letra. É um instante que existe num batimento cardíaco, numa respiração, numa emoção. Filosoficamente falando, nada existe no presente, apenas sensações.

Já o passado se constrói a cada dia e, às vezes, se mistura com o presente. A Terra tem aproximadamente 4,5 bilhões de anos, e nós, homo sapiens, há uns 300 mil. No começo, o ser humano não era uma ameaça, ocupado em buscar comida, fugir de predadores e migrar. Foi só entre 10 e 30 mil anos atrás, com a agricultura e a domesticação de animais, que nosso potencial foi liberado.

A partir daí, o ser humano se tornou um potencial inimigo de outro, pois, para proteger seu espaço, sua tribo, seu clã e seu futuro, passou a conquistar para não ser conquistado. Isso virou a regra, e em nome dela se passou a lutar por deuses recém-criados e por poder.

Passamos por muitas guerras e aprendizados até chegarmos ao “ontem”. O tempo em que vivemos é a consequência das ações do passado. Este mundo desafiador, onde lutamos para sobreviver, é fruto desse aprendizado e das vitórias de algumas tribos, clãs e povos que desenvolveram um pensamento colonizador e hegemônico, trocando a guerra pela economia, a luta pelo medo, o desejo pela vontade.

A Terra está em movimento, sempre se mexendo, internamente nas suas profundezas e externamente, no espaço universal. Ao longo do tempo, esse movimento causou desestabilizações que acabaram com quase todas as formas de vida do planeta, por cinco vezes – vulcões e asteroides, ou os dois juntos, destruíram a vida.

Mas, em nosso passado recente, o ser humano colonizador e hegemônico surgiu como uma nova força para acabar com a vida no planeta, causando uma possível sexta extinção em massa. Através do capitalismo neoliberal, essa ideia hegemônica presente na cabeça da maioria da população mundial, causou-se mudanças climáticas, perda de biodiversidade, poluição e consumo de recursos naturais que ameaçam a vida de todos. Exemplos:

  • Ventos, incêndios, chuvas e alagamentos se tornam comuns e destrutivos;
  • Estima-se que 12% da biodiversidade se perdeu com a destruição de florestas, enquanto novos vírus aparecem;
  • Lixo, produtos químicos e plástico estão em todo lugar, até em áreas remotas e no corpo humano;
  • Só 6% da água potável do mundo vai para o consumo humano (25% das pessoas não têm acesso), e 73% vai para irrigação.

Mas não fui eu que causei o problema!

Certamente não, mas a ideia de como causá-lo passa pela sua cabeça, afinal, estamos sempre entre dominar e ser dominado, matar ou morrer. Como pensar o futuro com um modelo de destruição do passado?

É aí que pensar se torna um ato revolucionário, principalmente para a psicologia e para quem precisa dela. Cada vez mais pessoas estão doentes e incapazes para a vida e o trabalho. Segundo a Organização Mundial da Saúde, pânico, depressão e ansiedade representam 60% das pessoas com transtornos psicológicos no mundo, quase 600 milhões!

Isso não é uma doença individual, é um sintoma coletivo de que nossa sociedade está doente. Remédios antidepressivos ou ansiolíticos só escondem o sintoma, adormecem a alma, fazem a gente ignorar nossas emoções. Não tem cura individual para um problema que não é individual, não é orgânico, é social. Pensar em remédio como solução também é um pensamento construído socialmente pelo capitalismo neoliberal. Podem ser necessários em alguns momentos, mas é preciso mudar o jeito de pensar para aprendermos a lidar com o que temos: um mundo e uma sociedade em colapso.

O futuro é uma ideia, uma ideia em risco e de risco. Muita gente tem medo de não ter trabalho, comida, água, saúde ou segurança, e a solução não está no fascismo moderno, nem numa esquerda social neoliberal dominada pelos “mercados”.

É preciso pensar fora da caixa, fazer uma revolução interna, aceitar que nossos pensamentos estão colonizados e nossas ideias, presas. Reformas não criam mudanças duradouras, só “maquiam”. Para abrir espaço para ideias novas, as velhas precisam ser destruídas. Não existe capitalismo sustentável, não existe consumo consciente – isso são reformas de ideias antigas que nos prendem a modelos do passado, impedindo uma nova ideia sobre o futuro.

Apesar de sermos únicos em nossa existência e nossa experiência de vida, o ego como o conhecemos é uma ideia que nos aprisiona, como a linguagem e as palavras que usamos. Em nome de nossa “singularidade” e de nossos “direitos”, passamos a acreditar em fantasmas, ideias que ameaçam nossa visão de mundo constituída, e o diferente deve ser combatido. Estamos tão dentro do sistema que não conseguimos pensar diferente.

O presente é o momento da imaginação, da revolução do pensamento, de questionar o que forma sua vida, de desafiar suas certezas. Esse é o primeiro passo para nos libertarmos dos sintomas atuais.

Cada ideia mudada é uma micro revolução social rumo a um mundo diferente. Novas ideias, como as de Kopenawa, Krenak, Butler e Maturana, estão ganhando espaço, mas as pessoas precisam sonhar de verdade, se entregar a uma mudança concreta de pensamento.

Preciado, em especial, é um filósofo que me provoca. Uma ideia que me chamou a atenção é pensar o ser humano como um simbionte, que vive na dependência de outro de espécie diferente, e que dependemos profundamente de nosso ecossistema. Assustador e concreto.

Desidentificação e desnormalização também são ideias poderosas, pois nosso compromisso com o que somos e com o que é normal nos impede de um contato real com outras pessoas e com nós mesmos. A liberdade vem do desajuste.

Sonhar também é um ato revolucionário, e um sonho que se sonha junto se torna realidade.

Artigo escrito por Mauricio Corsetti.

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